Brasília, 22 de abril - Agentes de polícia e especialistas em crime de três países de língua portuguesa na África e de seis países na América do Sul participam de treinamento para combate ao crime organizado em Brasília. O treinamento terá duração de quatro meses e meio e busca aumentar a cooperação Sul-Sul no combate ao crime organizado - incluindo rotas de tráfico de cocaína da região andina que deixam a América do Sul em direção à Europa, freqüentemente via oeste africano.
Homens e mulheres de Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru e Uruguai formam um grupo de 32 convidados que têm treinamento diário até meados de julho com mais de 300 brasileiros integrantes da Academia de Polícia Federal brasileira. A iniciativa é uma parceria entre o UNODC e o Departamento de Polícia Federal. O representante do UNODC Brasil e Cone Sul, Giovanni Quaglia, deu as boas-vindas os novos alunos na Academia de Polícia Federal: "Estou certo de que a experiência irá aproxima-los e poderá aperfeiçoar o trabalho das suas instituições para torna-los mais efetivos na luta contra o crime organizado".
De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2007, do UNODC, o país mais mencionado na rota de tráfico de cocaína da América do Sul para a África é o Brasil, seguido por Colômbia, Peru e Venezuela. Autoridades da Guiné estimam que 60% da cocaína vêm pelas suas águas via Brasil, e 40% vêm diretamente da Colômbia.

Os países mais vulneráveis do oeste da África transformaram-se em pontos importantes da rota de tráfico de cocaína da região andina que alcança os consumidores europeus. Só em Guiné-bissau o valor do comércio ilegal de drogas já é maior que o PIB do país, de acordo com o relatório do UNODC "Tráfico de cocaína no oeste africano". O relatório também mostra que um quarto de toda a cocaína consumida na Europa transita no oeste da África a um valor no atacado de cerca de 1,8 bilhão de dólares, o que gera um valor no varejo de cerca de dez vezes mais nas ruas da Europa.
"Só podemos combater o crime organizado por meio da cooperação internacional, e estar juntos neste treinamento é apenas o começo", disse a Conselheira Internacional do UNODC, Sandra Valle, que ajudou a impulsionar a iniciativa. O Diretor da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, acrescenta: "Esse não é um simples gesto de bondade, o programa é o resultado de uma necessidade real e crescente de se agir em conjunto, de maneira coordenada. É a primeira fase de uma cooperação internacional de longo prazo". De acordo com Luiz Fernando Correa, os próximos passos incluem transferência de conhecimentos acerca de técnicas de investigação e treinamento in loco.
Além de treinamento físico para capacitar os agentes e peritos de polícia, o programa contém aproximadamente 40 cursos, que envolvem Direito, sistemas financeiros, bem como conhecimentos teóricos e práticos sobre ferramentas e técnicas de investigação. Os cursos também incluem capacitação de polícia criminal internacional e local, prevenção às drogas e controle do tráfico, aperfeiçoamento de conhecimentos jurídicos, planejamento operacional, criminalística, direitos humanos e crime organizado, incluindo técnicas de investigação para identificar grupos, organizações criminais e o seu modus operandi. Gerenciamento de crises também é parte da rotina de treinamento, com técnicas de negociação em situações críticas.
O agente da Polícia Nacional Antidrogas do Paraguai, Oscar Romero, tem grandes expectativas sobre o programa de treinamento: "Espero multiplicar o conhecimento entre meus colegas ao voltar ao meu país". O jovem oficial da Polícia Nacional do Uruguai, Noe da Luz, 27 anos, acrescentou que "o curso irá permitir troca de informações, o que é um passo crucial no combate ao crime organizado". Para o tenente Carlos Morón, da Polícia Nacional Boliviana, "é importante saber a realidade dos países vizinhos a fim de trabalhar em conjunto mais efetivamente".

Alguns participantes estrangeiros irão ganhar mais que conhecimentos técnicos ao final do curso. "Depois do nosso treinamento aqui no Brasil, eu vou ser promovido para Tenente-Coronel da Polícia Nacional da Colômbia", disse o capitão Luis Andrés Becerra.
Alguns dos oficiais africanos ficaram satisfeitos de fazer parte da iniciativa, não só por razões profissionais. "Estou feliz porque esta é minha primeira experiência no exterior", disse Narith Karola Lopes, 30 anos, da Polícia Judiciária de Guiné-bissau. Sua colega Hermínia Sousa dos Santos, 27 anos, de São Tomé e Príncipe, chefe da seção laboratorial do Aeroporto Internacional do país, viajou de avião pela primeira vez quando veio para o curso no Brasil. No total, quatro mulheres da policia africana juntaram-se ao programa de treinamento.
Participantes dos três países de língua portuguesa da África disseram que, além do treinamento técnico, polícias nacionais careciam de necessidades básicas. "Precisamos de infraestrutura, equipamentos e laboratórios a fim de trabalhar de forma efetiva", disse Abel Pereira Gomes, da Interpol de Guiné-Bissau.
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