Boas Práticas
Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade (IETS)
As comunidades carentes do Rio de Janeiro são objetos de diversos projetos sociais que procuram melhorar a qualidade de vida dos seus moradores. Mas quando esses projetos são desenvolvidos e realizados pelos próprios moradores, tornam-se mais interessantes e com maiores chances de obter bons resultados. O
Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade (IETS)
é uma organização não-governamental que atua neste sentido, disseminando conhecimento sobre essas realidades locais por meio de pesquisas que auxiliem a formulação de políticas para estas comunidades e a avaliação de programas sociais.
Criado em 1999, o IETS tem o objetivo fundamental de estreitar as relações entre pesquisas aplicadas e a implantação de políticas públicas nas áreas social e do trabalho. O IETS articula uma rede de atores interessados em estudar a pobreza e a desigualdade no Estado do Rio de Janeiro e no país, apresentando proposições para enfrentar essa problemática.
Um dos projetos de destaque do IETS é
Observatório Social de Favelas (OSF)
, fundado pelos professores da Universidade Federal Fluminense Jailson de Souza, da Faculdade de Educação, e Jorge Luiz Barbosa, do Departamento de Geografia. O projeto integra pesquisa e ação com a participação de 22 moradores das comunidades carentes de Rio das Pedras, Vila Kennedy, Maré, Chapéu Mangueira-Babilônia e Cantagalo-Pavão-Pavãozinho. Eles realizam pesquisas em suas comunidades, debatem textos e participam de seminários e cursos.
O Observatório está sediado na Maré. Graças à sua atuação, alguns aspectos menos conhecidos das favelas tornam-se mais visíveis, como dados populacionais, condições de vida, escolaridade etc. Estas informações ganham papel crucial na formulação de políticas públicas. Conhecendo as necessidades e potencialidades de cada comunidade, espera-se que o poder público e a sociedade civil possam executar programas mais adequados e eficazes.
Os universitários trabalham organizados em redes locais, articuladas com alguma instituição já inserida na comunidade. A maior referência nesta área é o
Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM). Criado em 1997 e administrado por moradores e ex-moradores, em sua maioria com curso universitário, o CEASM desenvolve projetos que procuram dar condições aos 130 mil moradores da Maré de superar o quadro de pobreza e exclusão em que vivem.
Atualmente, sua principal ação acontece na área de educação. Entre os diversos programas em atividade está o
Curso Pré Vestibular (CPV), o mais antigo dentre eles e que tem hoje mais de 300 alunos. Por contar com moradores e ex-moradores da Maré, a equipe pedagógica do CPV conhece bem a realidade e as dificuldades de vida dos seus alunos.
Os bons resultados do curso são claros: seu percentual de aprovação de 45% excede o de muitos cursinhos particulares Nos últimos três anos, pelo menos 150 estudantes conseguiram ingressar na universidade. São alunos que, por causa de sua situação sócio-econômica, não teriam condições de se preparar adequadamente para o vestibular. O sucesso do curso torna-se especialmente notável quando se pensa que a maioria dos alunos concluiu o ensino médio na rede pública.
O acesso dos estudantes à 5
a série do ensino fundamental e ao ensino médio também é objetivo dos projetos do CEASM. Estes cursos preparatórios reúnem mais de 100 alunos, orientando e dando condições para que os alunos dêem prosseguimento aos estudos. O CEASM oferece ainda outros programas, como uma escola de línguas que, em parceria com a Faculdade de Letras da UFRJ, oferece cursos de inglês, espanhol e italiano. O Programa de Crianças, projeto da Petrobrás desenvolvido pelo CEASM, inclui atividades extensivas de natureza educativa e cultural. Há também a Biblioteca Popular da Maré, espaço comunitário que conta com um acervo multimídia.
Outro projeto proposto pelo Observatório Social de Favelas, em parceria com o CESEC (Centro de Estudos sobre Segurança e Cidadania) e o Departamento de Ciências Sociais da Escola Nacional de Saúde Pública- ENSP/ FIOCRUZ, é o programa
"Rota de Fuga - Ações integradas para crianças e jovens empregados no tráfico de drogas e seus familiares". Seu ponto de partida será a formulação de uma análise das práticas características dos envolvidos na rede social do tráfico de drogas da cidade do Rio de Janeiro. Para tanto, está planejada uma pesquisa sobre trajetória social que acompanhará, por pelo menos 2 anos, 250 crianças e jovens empregados no tráfico de drogas.
Com a devida compreensão da situação em que vive seu público alvo, serão desenvolvidas metodologias para a prevenir a entrada dos jovens no mundo do tráfico e também para criar alternativas viáveis àqueles que dele querem sair. O projeto parte do princípio que o jovem só será afastado efetivamente da rede do tráfico de drogas se tiver possibilidade de inserção permanente em redes sociais do campo da legalidade. Daí a importância do acesso combinado à educação, à cultura, ao emprego e à renda, a forma mais segura de se alcançar desenvolvimento econômico, paz e justiça social.
Atuações como esta do CEASM e como a proposta pelo "Rota de Fuga" ganham grande significado para as comunidades carentes. Suprindo necessidades não atendidas pelo poder público, os esforços de ONGs e associações comunitárias oferecem às populações a possibilidade de melhoria das condições de vida. Mais especificamente, os projetos de estímulo e suporte à educação, como os que têm lugar na favela da Maré, proporcionam acesso à educação necessária para a inserção no mercado de trabalho formal. Abrindo-se alternativas profissionais, pode-se diminuir o apelo representado pelas atividades criminosas que dominam o cenário das comunidades.
O representante do UNODC no Brasil e Cone Sul, Giovanni Quaglia, visitou as atividades do IETS na Maré e verificou que as melhores práticas listadas pela literatura científica sobre prevenção ao crime e segurança urbana estão sendo implementadas pela ONG. "A experiência internacional demonstra, por exemplo, que ajudar os jovens de comunidades carentes a completar o ensino médio e universitário é um dos melhore investimentos para reduzir a criminalidade. E o CEASM está fazendo exatamente isso", comenta Quaglia. Para ele, o comprometimento desses jovens com a comunidade após a conclusão dos seus estudos ajuda a encontrar soluções locais para o problema de exclusão social que afeta aquela população.
Na área de pesquisa sobre criminalidade e narcotráfico, um importante trabalho do IETS é o livro "
Crianças no Narcotráfico: Um Diagnóstico Rápido
", publicado em parceria com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e o Ministério do Trabalho. O projeto exigiu a formação de uma equipe de pesquisa experiente, o estabelecimento de negociações em diversos níveis com os diferentes atores envolvidos no assunto e a manutenção de uma atitude coerente e transparente com os grupos entrevistados. O UNODC recomenda a leitura do livro (clique no título do livro para ler a publicação).
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